sábado, 25 de setembro de 2010

Entre a Chuva e a Areia































A chuva que cai exerce um peso tremendo em mim. Afunda-me cada vez mais em minha cama. É-me difícil acordar de meio de um sonho, debaixo daquele peso. Todos passamos por isso, aqueles instantes de desorientação em que fazemos o norte de sul e o cima de baixo. Ainda me encontro lá perdido: num qualquer pensamento, virando para vislumbrar algo a meu lado, correndo para algures sem saber porquê, cortado a meio de uma frase que se me esquece mesmo antes de a acabar de pronunciar. Esqueci do que era, para onde ia e que dizia. Esqueço. Esqueço de onde estava. Aos poucos as acções mecânicas angulares tomam conta de meus membros e levanto-me, mas ainda estou na cama a sonhar. Depressa o sonho escorre de mim como areia entre os dedos de uma mão que se abre devagar.


Acredito que todos sintam o mesmo inevitávelmente. A diferença está no quão pesada sentimos a chuva e no quão molhada ela torna a areia que se agarra a nós. Não. Na verdade sou eu que a agarro, e tudo o que toco aqui onde me encontro parece ser palácios feitos dela.


Aprecio a ironia desta alegoria, que dita um homem que vagueie no deserto um sonhador.



Sei que o que vos escrevo pode ser confuso porque o ritmo e entoação da melodia padronizada em palavras que quero que oiçam é muito diferente de vez para vez e sei perfeitamente as diferenças entre o eco que meus pensamentos me devolvem através da acústica nos salões de minha mente cria pormenores entre quem escreve e quem o lê. Devo perceber que por detrás do espelho para qual falo muitas vezes se encontra alguém tentando discernir as palavras que escrevo no vapor.

Portanto acreditem que sei, que o que escrevo soa melhor para mim que para vocês.


Tenho ficado por Tokyo por estes fds, por isso nao tenho grandes fotos novas, daí que vou aproveitar para por mais algumas de onde tive que queria te mostrar. Ah, algumas das fotos nao sao minhas mas do pessoal que tá por cá comigo, nao reclamem de direitos de autor pff. :)



Até.









domingo, 12 de setembro de 2010

Todos os comboios são locais.






















Quando pesquisei por hikawa camping no google, esperava ter alguma ideia de onde era o ver mais ou menos como seria o local onde íamos acampar este fim de semana. Nunca esperei ir bater a algo como GayJapanNews, que iria ter um acampamento no mesmo sítio...mas no fim de semana seguinte! Passou perto essa...

Okutama é uma imensidão de verdes montes que se erguem como incisivos que querem rasgar um céu azul. Perdida a umas 2h ao sudoeste de Tokyo. A distância não é assim tanta, mas a zona
é algo isolada, e o comboios são um pouco antigos e vagarosos, bruscos nos arranques e ruidosos nas paragens. Não existem expressos aqui, o que quer dizer que todos os comboios param em todas as paragens: "locais", dizem. E é exactamente assim que quero que minha "viagem de comboio" seja: local. Quero ver o local, onde se encontra e o porquê da graça que exibe. É isto que quero do Japão: locais, não expressos pragmáticos e resumidos a factos. Quero avistar mais e mais longe estes locais.
E que locais esses.
Partimos de manhã cedo, o que tornou o embalo do comboio ainda mais entorpededor. No último comboio, sabendo que a viagem ia demorar mais de uma hora, acabei encostando a cabeça uns momentos. Saímos do panorama citadino carregado de Tokyo em pouco tempo, e o verde começou a se fazer ver, subtilmente. Mais plantas, árvores, jardins, casas mais pequenas até que entrei num túnel e não abri os olhos ao sair. Baixando com a cabeça cada vez mais até que eventualmente o balanço fez com que abrisse os olhos. Todo o resquício de Tokyo que ainda se fazia sentir tinha desaparecido. Estava perdido nos montes verdes, sem ideia de como cheguei aqui. Senti como se tivéssemos passado por um túnel de centenas de quilómetros e tivesse dormido 2 horas.
A cidade rural típica japonesa perdida nas montanhas era algo que ainda não tinha tido a oportunidade de ver. Tão calma e isolada, tão dentro de florestas densas que tenho sempre a sensação de como teria sido crescer num sítio desses. Muitas vezes fantasio essa questão, em sítios particularmente interessantes. Correr floresta dentro e perder-me de tudo saltando através do chão irregular, colocar a mão no vidro de uma janela entre a neve a cair e um calor ao redor.
Íamos acampar junto ao riacho que corre por lá, mesmo fora da cidade, numa espécie de vale de rocha e musgo. Claro que quando digo acampar quero dizer em cabanas de madeira que povoam a floresta junto à margem do rio, alugadas às pessoas. De partir melancias com espadas de madeira ao churrasco típico japonês (yakiniku...meu deus tao delicioso!), foi um dia cansativo para mim e para as outras 96 pessoas que foram connosco. Tanta comida, tanta coisa para lavar e fazer e nem atrasou 5 minutos. Devo dizer que dormir de noite num tatami é um luxo no que respeita a acampamento.
Na manhã seguinte tinhamos de fazer o checkout até às 9, o que implicava acordar para o pequeno almoço às 7 da manhã. Sopa. Imediatamente pensei que deveria ter comido ainda mais no churrasco delicioso de ontem. Tenho de aprender a fazer (ou identificar no supermercado) aquele molho delicioso de yakiniku.
O comboio de volta, ainda mais vagaroso fazia o so forte da manhã parecer tal noite tão escura. Tão escura era essa noite em meu sono que fui novamente incapaz de encontrar o limite entre Tokyo e os montes verdes de Okutama.
Voltei ainda agora para casa, onde vos escrevo, depois de algumas horas de molho na banheira.

Ah, pois é, esqueci de vos dizer. Aparentemente as personagens do GayJapan foram este fim de semana lá também. Só que eram da divisão feminina...

FOTOS:
a última foi em Miyajima, quando formos a Hiroshima,


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Alusões & Olhares























"Se alguém tiver uma vassoura de pernas para o ar, quer dizer que não és bem-vindo. Se te oferecerem um tipo de arroz com chá verde, quer dizer vai te embora imediatamente".
Realmente, Kyoto faz jus à sua reputação de ser o lugar onde as pessoas mais escondem os seus sentimentos. Claro que fiquei apreensivo, receoso de ofender alguém por uma ou outra atitude ignorante, mas na verdade o pouco tempo de que estive lá deu para perceber que o fenómeno de civismo japonês também se propaga até aqui.
Kyoto é uma cidade bastante visitada por turistas daí ser normal tropeçar em conversas em espanhol, francês, algum português-com-açúcar e mandarim, nos locais à sombra perto das máquinas de venda de gelados ou refrigerantes onde se tenta em vão escapar do calor de 37 graus de elevada humidade. Neste ponto devo dizer que em Tokyo, se andar 120s numa qualquer direcção encontro sempre máquinas de vendas automáticas, e Kyoto também respeita esse pequeno adágio, não fosse também uma das principais cidades do Japão.
Mas é diferente.
Pergunto-me que direito tenho eu de comparar Kyoto com Tokyo, por exemplo, como se eu conhecesse alguma coisa de Tokyo realmente. Mas não consigo escapar de cometer essa presunção e manter Tokyo como um ponto de referência debaixo de uma sombra distante na imagem que vejo.
Kyoto é orgulhosa. Silenciosamente orgulhosa. Como alguém que se conhece e depois de alguma troca de palavras ou qualquer interacção se fica com a impressão de que existe mais para além da superficialidade cordial que a pessoa mostra. Acho que todos já tivemos esta sensação, de nos apercebermos de alguém assim, algo antigo e especial que algumas pessoas reflectem debaixo de uma certa luz. Fenómeno raro, facilmente passa despercebido ou por vezes preferimos ignorar por nos fazer enfrentar a nossa própria mediocridade.
Kyoto dá-nos esse olhar de "sei algo que vocês não sabem" com sorriso torcido, como que a dizer que a perca é nossa se não quisermos saber. Dura e fechada de longe: nada mais longe da verdade.
Kyoto é gentil.
Orgulhosa e gentil. De facto, tão é assim que se orgulha de ser gentil. Pode ser difícil de entender, mas quanto mais temos algo em que nos orgulhar, menos somos algo de que nos podemos orgulhar. Mas Kyoto é especial o suficiente para saber ser especial; ter algo que se orgulhar e agir com humildade e gentileza. Estes dois aspectos são tão, tão raros e bonitos que surpassam tudo o resto. Pode ser o feito mais incrível, se não for tratado com humildade e gentileza irá sujar, e passar despercebido pelo mundo.
Acho que as pessoas aqui sabem disto, muito mais que eu, e perpetuam este sentimento. É por isso que por vezes me sinto deslumbrado com todas as coisas maravilhosas que vejo aqui e as pessoas são das mais simpáticas que já conheci. Uma vez disseram-me que era o espírito do bushido, o código de vida morte e honra pelo qual os samurais se regiam que continua a ser aplicado no respeito ao próximo.

Kyoto é, se algo, memorável. Quase que pavimentada com todo tipo de templos, um mais esplendoroso que o outro, está mais próxima de um passado cultural ligado com crenças budistas e xintoístas. Existem tantos protocolos diferentes para se comportar de templo para templo que por vezes penso que é só para gozar com os turistas: toca o sino, bate palmas, levanta o peso, anda de olhos fechados, bebe água das três fontes, é tudo tão diferente e novo que é difícil manter em mente que aquilo são as crenças de milhões de pessoas e não superstições.

Ah, e já agora, é mesmo ouro!
P.S. comi as melhores batatas fritas de sempre: o hamburgueer era bom, mas as batatas, pff... Daa pa escolher um de 7 sabores para as batatas, depois tinham mais outros molhos que podias tirar de graça pa pores nelas...so nao pus a foto pa nao fazer inveja :P
Fotos:
1-Kinkakuhi, o templo dourado
2-idem
3-templo zen, jardim de rocha
4-não me lembro do nome do local...
5- uma montanha para passear que tem 1300 destes portões. enorme. (perdi.me e tudo...)
6-kyomizu dera, entrada
7-Kyomizudera, parte de cima, depois da entrada























domingo, 15 de agosto de 2010

8:15
































É incrível que ainda possamos ser mantidos assim tão acordados à noite por um momento que ocorreu à mais de 65 anos. A aura tão pacífica de Miyajima, ilha da Itsukushima Shrine, com seus os portões vermelhos dentro de água, é tão extensa que somos abafados por sua tranquilidade muito antes de lá dar-mos um primeiro passo. A vegetação extensa e altamente preservada em redor e a presença do mar são claros indícios de uma comunhão com a natureza incrivelmente cuidada, mas nunca esperei que os veados passeassem tão livremente dentro da cidade, abordando as pessoas à procura de comida ou mimos; aparentemente com uma predilecção por papel que leva a situações hilariantes com turistas distraidos segurando mapas ou nos bolsos de trás.

Nem um calor impiedoso nos impediu de explorar uma das ditas "três vistas do Japão" e suas delícias: ostras grelhadas, uma espécie de enguia em molho agridoce e doces fritos por fora ainda me causam fome (leia-se gula) ao recordar.
Hiroshima é uma cidade maior do que esperava. Dentro das enormes avenidas que a atravessam sinto que tenho mais espaço para respirar do que em Tokyo, que aqui me parece autenticamente claustrofóbico. A grande concentração de pessoas encontra-se, como seria de esperar, nos grandes monumentos e museus dedicados à memória daquele dia.

"6 de Agosto de 1945. O céu estava claro, sem uma nuvem à vista". Todos os relatos que vi e ouvi de sobreviventes da bomba atómica lançada aqui começam assim, como que para enfatizar que mesmo um inferno não demora mais de um momento para surgir.

"Estava sentado no banco de um jardim e uma libelinha pousou ao lado. Estendi minha mão para alcançá-la, e então..."

Estas palavras encontram-se na entrada do grande museu memorial pela paz, perto de um dos relógios parados às oite e quinze da manhã, momento que a bomba detonou em exposição. O museu é perto do monumento homenagiando Sadako Sasaki, a rapariga que tornou origami um símbolo da paz e morreu de leucemia devido a efeitos que ainda persistiam da radiação da bomba.

Hiroshima é uma cidade dedicada à paz, apesar da memória da guerra presente.
Tivemos a imensa fortuna de presenciar duas palestras: uma de Steve Leeper, um autêntico cruzado mundial pela não proliferação e desmilitarização de armas nucleares e outra de uma sobrevivente da bomba atómica. A primeira confronta-nos com a situação global, de que como apenas uma mera dúzia de bombas de hidrogénio lançadas pode causar efeitos devastadores globais, mesmo se não for um inverno nuclear é o bastante para destruir completamente larga parte dos cestos de pão do planeta como Canada e partes da Sibéria. Diz-nos a más e as boas notícias, com a esperança renovada pela corrente administração americana, acordos conseguidos no médio oriente com o Egipto a liderar um pedido de uma zona livre de armamento nuclear, e como a nossa pequena parte pode um dia importar o bastante. Traz-nos para mais perto da fonte de luz, e sinto-me crescer por minha sombra no mundo atrás, como se pudesse agora agarrá-lo com minha mão. No fundo, a responsabilidade perante tudo faz-me parecer, sentir maior no mundo.

Na segunda palestra, no dia seguinte fui pego de surpresa. Talvez devido à vitalidade e professionalismo que a senhora aparentava disfarçava o horror que viríamos a escutar. Devo dizer que o próprio Dante Alighieri não teria conseguido retratar um horror de um inferno assim mesmo que tivesse cem anos para escrever sua obra. Uma coisa é entender a ciência por trás, uma reacção em cadeia, libertação de energia, estatísticas, factos frios, o número de mortos, as consequências da contaminação da radiação...Outra é ouvir da boca de alguém como um céu azul se tornou negro num instante, alimentado por fumos tão negros de incêndios que deflagraram num segundo. Que caia chuva negra espessa. Que as pessoas que não forma mortas pelo impacto vagueavam, sem se perceber se eram homens ou mulheres, nus, com a pele de seus braços suspensas pelas unhas e cotovelos. Que gritavam por água. "Água, por favor", diziam, mas o governo dizia que eles morreriam do choque se bebessem, por isso recusavam. que os viam morrer à mesma, cobertos de queimaduras, atirados ao rio, de cabeça baixa. Milhares de cabeças baixas à beira rio, de pessoas que tinham ido beber água ao rio. Que ainda se lembrava da sensação escorregadia de pisar essas camadas de pele que tinham se soltado dos corpos como lama por uma esponja com água. Do cheiro. O terrível cheiro da morte. Dos insectos que todos os dia apareciam nas suas feridas. E da forma como o seu pai a tinha encontrado, por acaso. E do abraço que lhe dera. Um abraço que viria depois de ter passado dias. esperando encontrar sua filha viva num inferno. E de como esse abraço viria a tomar a sua vida um mês depois, pois o pai que tão desesperadamente saiu de casa para procurar sua filha tinha sido demasiado exposto por ter passado os dias a virar os corpos mortos, procurando o rosto de sua filha. Esta senhora, ela própria vítima recuperada de um cancro, felizmente é muito mais energética do que possam pensar, apesar de ter conseguido ter dois filhos, um com problemas mentais e outra também ela vítima de um cancro. Dizem que só daqui a cem anos poderemos realmente ver as consequências dos efeitos de toda a radiação na população.

Após o relato, uma colega japonesa perguntou se a senhora sobrevivente queria deixar alguma mensagem às futuras mentes cientificas ali presentes. Foi a primeira vez que se emocionou ao ponto de deixar tremer a sua voz. Que aprendam algo com o horror cometido e que se lembrem sempre dele, é o suficiente. Que saibam que existem coisas que são imperdoáveis entre seres humanos.

A verdade é que após a rendição da Alemanha e Itália,o Japão já tinha acordado um rendição condicional, garantindo apenas a salvaguarda do imperador. Essa rendição foi recusada, e pouco tempo depois, sem aviso prévio, foram lançadas as bombas atómicas. É engraçado que os japoneses jovens com quem falo sobre isso tentam justificar um pouco o uso das bombas contra o Japão, dizendo que o Japão é uma vítima mas também agressor contra outros países asiáticos e os Estados Unidos. Documentos oficiais e réplicas em exposição no museu mostravam o secretário geral dos Estados Unidos dizendo que estava algo receoso que devido ao facto da "força aerea possa ter arrasado o Japão completamente o Japão ao ponto de não restar um local com o cenário de fundo adequado à demonstração da força total da bomba", ou que os "tremendos custos do desenvolvimento da bomba não seriam justificados".

É difícil explicar o que senti durante tudo isto, mas é fácil de imaginar e pelo menos fazer uma ideia. A guerra é um conceito extremamente difícil para a maior parte de nós, e estar assim tão perto das grandes cicatrizes mundiais que temos enquanto espécie humana é demasiado para conter.
Surpassa-me, transcende-me tudo isto. É uma tempestade negra em meu redor enquanto tento conter o máximo de água em minhas mãos, olhando o céu acima.
Fotos:
1- Relógio que parou no instante em que a bomba detonou
2- 1000 gruas de origami que todos fizemos para colocar junto ao monumento de Sadako Sasaki
3- Monumento de Sadako Sasaki
4-A cúpula da bomba atómica, Genbakudan dome mae, um célebre edifício que sobreviveu parcialmente
5-O portão vermelho no mar junto ao templo em Miyajima
6 - Vista de parte da cidade de Miyajima, oposto ao mar
7- Um dos muitos amigáveis bambis que circulam por lá.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Mago de Oz
























Por vezes penso em o quão isolado realmente estou de onde estava. Agora preciso de fazer um esforço para encontrar notícias do Portugal de onde parti. É-me difícil medir a distância agora, até onde estou. Algures perto de nada. Mas é tudo tão vívido agora que a realidade se torna mais fácil de aceitar.

A verdade porém, é menos satisfatória: ainda me restam para perceber muitos dos axiomas e dogmas pelos quais as pessoas aqui abidem. A boa natureza das pessoas aqui parece quase surreal, espelhada de contos de fadas ou histórias fantásticas. "Be good and you will be lonesome". Esta simples expressão de Twain ecoa ressonando com meu cinismo interior, incitando-me a descobrir a razão desta aparente corrente gigantesca de civismo que aqui se assenta.

É verdade que a cultura única do Japão e o seu isolamento do mundo durante largos períodos da sua história podem ser responsáveis por parte da resposta, bem como a excelentes condições de vida que aqui gozam, mas isso seria apenas verdade se o homem fosse considerado nativamente bom, onde então este lugar não seria nada além de um éden perdido na cultura de aldeia-global presente, uma ilha dentro do do fenómeno de globalização actual que mantém laços económicos e sociais que a impedem de flutuar para além.

Por vezes penso que as atitudes samaritanas que testemunho são por vezes determinadas por padrões de condicionamento de comportamento social mais do que os ideais de morais modernas intrinsecamente tecidos dentro da existência pessoal individual.


Que seja então.

Deveria mesmo questionar seus actos? Não deveria estar radiante de que simplesmente exista um fabulado "bastião de esperança" sem que perceba as suas razões de ser? Porque quereria correr o risco de descobrir algo que traga todo este lugar para um nível abaixo, mais perto do resto do mundo, crescentemente incorrecto. Lembro-me da análise de Brown à figura de Deus de Kierkegard, e como este utilizava o conto do Mago de Oz, em como o Leão, o Homem de Lata e o Espantalho tinham mudado a sua maneira de ser por acreditarem no Mago de Oz. Não poderão os fins justificar finalmente os meios?

E mesmo que este modelo se aplique, quem é este Mago de Oz que os inspira a agir assim? Sempre acreditei que as pessoas são iguais em parte igual à sua unidade menos a parcela de influência genética, claro, mas parece haver outros factores a se pronunciarem.

Mais importante que tudo isto é a razão pela qual quero saber tudo isto; outra pergunta no meio de tantas, mas com outra relevância. Será possível recriar os resultados? Em outro local, reproduzir estas circunstâncias? Poderemos nós enquanto sociedade no futuro engendrar estratagemas sociais além de um grupo de valores ditos pós-cristãos? Será possível ou ético, mudar ou influenciar, as consciências sociais para um ganho mundial comum?

"Não sei, confesso, e cansado deixo de pensar."
Fotos:
1 e 2 - Daibutsu, em Kamakura;
3- Templo Zuisenji templo em um jardim em Kamakura,
4- Tsurugaoka Hachimangu, templo
5 e 6 - Dois das centenas de quadros presentes no jardins à volta do templo; feitos e assinados todos por artistas famosos
7 - Barris de Sake armazenados para um festival que se aproxima, para serem abençoados junto ao templo.
8-- JAXA Tsukuba Space Center, centro de exposições

sábado, 31 de julho de 2010

Quase Qualquer.

























Quase.
Quase todos os passos que dou aqui levam-me de encontro a algo imenso, incrível. Levaram-me a ver a baía de Tokyo à noite desde a Rainbow Bridge ou a estátua de Hachiko em Shibuya rodeada por largos milhares de pessoas. Lembro-me de ontem estar aqui, bem no centro de um dos mais movimentados pontos de encontro de Tokyo, olhar para cima para todos os ecrãs nos edifícios, vivos, animados por publicidades infindáveis. Lembro-me do som que milhares de vozes fazem; parece ruído branco, chuva ou água a cair de uma cascata. Parei e olhei para cima. Algo que gosto de fazer. Seja pelo hábito criado ou pelo que me por isso é dado, o fiz.

Tentei escutar algo ou pelo menos distanciar-me o suficiente para olhar para mim mesmo e apreciar a situação; é difícil para mim explicar, mas existem momentos em que tento sempre conter meu entusiasmo: penso nele como um qualquer curso de água que me leva, por vezes rio veloz por vezes ribeiro seco. Assim, imagino que para conseguir flutuar mais alto ou aproveitar uma maior onda tenho de construir, fazer existir, certas barreiras como represas onde deixo-o acumular, crescer dentro de mim. Por isso páro. Por essa sensação que depois me carrega mais longe e me faz apreciar mais além pois lembra-me da referência de onde parti.


Aproveito também esse tempo para engravar em mim mesmo o mais fundo possível tudo onde estou envolvido. Talvez seja por que me dá a sensação que dura mais assim, tenha mais significado, gratificação pessoal ou simplesmente necessidade de satisfazer os meus impulsos naturais de auto contemplação e ponderação. Contudo, saber que estou ali dentro daquela realidade, banhado pelas luzes, envolvido por um verão de sensações dá-me imensa pena. Sempre que páro de experimentar tudo instantâneamente e tento dar uma profundidade temporal transcrevendo tudo para dentro de mim apercebo-me que não tenho tempo, talento ou forma de fazê-lo. É como se minha alma fosse demasiado pequena ou frágil para conter tudo aquilo, tudo isto.
Mas é por pouco.
Por quase.
E é precisamente o resto desse "quase" que escrevo aqui: aquilo que consigo, que quero partilhar. Por esse quase qualquer.
Contudo, por vezes isto leva-me a criar uma certa inércia quanto a escrever neste blog, pois dá-lhe um sentimento de insignificância. Por mais que escreva não irei dar mais do que uma noção do que é estar aqui. Portanto, se falhar outra semana não se preocupem: apenas preciso de tempo para organizar toda uma debandada interior. Isso, ou não tenho fotos decentes para vos mostrar.
;)
FOTOS:
1-Monte Fuji
2- Tanabata Festival, num templo dentro de Tokyo.
3- Sumidagawa Hanabi Taikai, festival de fogo do rio Sumida
4-Shibuya
5- Ooedo Onsen, Tokyo, banhos termais japoneses

Concurso : Ganhe uma Canon


Já temos um tiro no porta aviões, não vou dizer o quê nem quem mas ainda faltam mais 4 ou 5.

domingo, 18 de julho de 2010

Acima das palavras
















Fuji san; sempre achei estranho que cada vez que ouvia um japonês dizer algo acerca do monte fuji este referia-se a ele como Fuji san, como se fosse uma pessoa. No momento em que subitamente um colosso aparece no nosso campo visual entendemos porquê.
Devo dizer que a personificação do monte Fuji é um understatment quando comparado com a presença que o mesmo tem em alguém. É incrivelmente alto (3776 metros) e de formato tão bonito que parece que foi desenhado. é também rodeado pelo Jyukail, ou Mar de Árvores. Um nome adequado, já que o horizonte presente nele dá a mesma sensação que olhar o mar imenso quando visto de cima. Esta floresta é incrivelmente mística, com enormes quantidades de histórias e cultura por trás, algumas não as melhores, visto ser o 2º lugar do mundo com mais suicídios.



Saímos de Tokyo eram 16.30, rumo à quinta estação na subida para Fuji san. Já acima das nuvens, era aqui que iríamos fazer os 1776 metros que faltavam para o cume. Mesmo no fim do por do sol conseguimos ver as nuvens abaixo a se incendiarem com rasgos de relâmpagos laranjas. Incrivelmente impressionante.

Começamos a subir às 19h; a ansiedade era alta à medida que investíamos pelo escuro adentro. O caminho começava a se erguer, inclinar acima como se soubesse de nossas intenções e tentasse nos impedir. A vista das luzes das cidades abaixo e seu reflexo nos lagos eram como uma mão em minhas costas, me empurrando. "Mais acima, quero ver de mais acima" pensava. Cada hora de subida permitia ver as luzes de um ângulo um bocadinho mais acima; fogos de artificio de verão explodem em diversos pontos da cidade.


Horas de subida depois, o maior problema revela-se. Um mar de gente, literalmente vários milhares de pessoas sobem conosco. De baixo é uma visão espectacular, ver uma serpente de luz de forma espiral a subir em direcção ao céu, mas nas últimas etapas mais inclinadas e de rocha escarpada causa engarrafamentos horríveis, ao ponto de dar um passo a cada 10 segundos. Isto comparado com a falta de sono, cansaço, falta de ar e inclinação acentuada levam a horas de fadiga mental, obrigando a pessoa a entrar numa quase tortura psicológica de todos estes factores.



Finalmente, depois de uma agonia vencida passo ante passo, chegamos ao topo. Não todos, apenas 8 dos 40, mas chegamos.


Neste momento passavam das 4 da manhã.


Apesar do frio terrível e de pagar 3 euros para ir à casa de banho, todos esperávamos com ansiedade o nascer do sol. algum tempo depois, ouvimos um tambor, e os primeiros raios de sol revelavam a visão que tinha impulsionado tanta gente a fazer tamanho sacrifício.


Mesmo se tentasse o meu melhor, não consigo sequer começar por descrever e tentar partilhar ou induzir de algum modo a experiência que é estar no topo do Fuji san e ver o nascer do sol. Puramente, acho que estamos demasiado alto, demasiado perto dos céus; acima das palavras.

O barulho do champagne a escorrer, as pessoas a chorar de felicidade e os sorrisos nas nossas caras não deixam espaço para erro: estávamos mesmo a brindar com champagne no topo do Fuji san.
..
..
A cratera´no topo é igualmente impressionante, demorando uma hora para dar a volta. Durante a descida pudemos apreciar tudo aquilo que durante a noite não nos apercebemos: o mar de árvores, os lagos, a cidade...tudo parecia tão distante, tão longe. Após as quase 4_30h de descida chegamos de volta à quinta estação.


O autocarro que tinha ido tão barulhento era agora um santuário completamente silencioso. Aquele breve sono até Tokyo foi um dos melhores que já dormi.


Até.


Concurso:
Ainda sem vencedores, devo relembrar para ver tentativas antigas para eliminar hipóteses. Again, ninguém paga por tentar e podem tentar as vezes que quiserem.

Fotos:
1- Durante a descida, cidade e um lago
2- Na cratera, no topo
3- Vista desde a 5 estaçao(já acima das nuvens) até ao topo.
4- vista desde o autocarro
5- Vista do por do sol desde a quinta estação.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Tokyo(t)=C+ε^t











3 semanas.
Este domingo fará 3 semanas desde que me encontro em Tokyo. Algumas coisas mantém-se iguais; o calor, o meu analfabetismo, o trabalho...Mas já vi algumas centelhas de mudança.
Falaram-me uma vez de gente que largava tudo para ir procurar ouro; Por vezes ficavam dias sem encontrar nada, até que um dia talvez tivessem a sorte de vislumbrar uma leve cintilação entre suas mãos. Contudo sabem que aquela fugaz luz não significa mais do que um passo no longo caminho que escolheram, por isso pergunto-me: será que ficam incrivelmente felizes por passarem dias a trabalhar para aquilo que finalmente encontram, ou será que o peso que o tamanho do seu esforçoi futuro exerce sobre eles é tão grande que não conseguem levantar um sorriso?

Eu?
Eu fico feliz.
Fico feliz sempre que encontro algo assim, por mais pequeno que seja, lembrando-me que estou na direcção certa. O problema é que por vezes não tenho tempo para me aperceber desses pequenos fragmentos que brilham dentro do meu bolso. Mas de vez em quando, quando olho para dentro vejo que se acumularam pouco a pouco, paro e sorrio.
De vez em quando.
Só espero que quando o meu tempo aqui acabar tenha os bolsos pesados.


Tokyo é cada vez mais espectacular. Exponencialmente Espectacular, onde "ε" é a constante de espectacularidade universal e "C" o valor inicial de fascínio de cada individuo.



Amanhã vou ao Monte Fuji, ou Fuji-sama como eles dizem aqui, ver o nascer do sol.
Espero que no domingo já as publique.


Concurso:

Ainda não temos vencedores, o que acho estranho pois com tantas pistas que já dei esperava que já tivesse comprado a câmara.
Mas darei outra pista:
"...é como dizer:
"Tava andando na neve, e de repente surgiu-me a ideia da pergunta e da resposta;
e pista é:
"galinha"
"


Até.